Professor da Ufal propõe modelo de IA que funciona sem conexão à internet
Tecnologia pode ampliar acesso de alunos em escolas com baixa conectividade
Um modelo de inteligência artificial capaz de funcionar sem conexão contínua à internet e ampliar o acesso à tecnologia na educação foi apresentado durante a Semana da Aprendizagem Digital 2026, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris. A proposta, chamada de “IA Desplugada”, tem participação do professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Ig Ibert Bittencourt e busca reduzir as desigualdades digitais em escolas de países em desenvolvimento.
O modelo se baseia em cinco princípios. O primeiro é a compatibilidade com a infraestrutura e as práticas já existentes nas instituições de ensino. O segundo prioriza o funcionamento sem conexão contínua à internet, permitindo que as ferramentas sejam utilizadas mesmo em ambientes desconectados.
A abordagem também prevê a atuação de intermediários, como professores, em situações nas quais os estudantes não têm dispositivos individuais. Outro princípio é a possibilidade de uso compartilhado de computadores, sem a necessidade de contas pessoais para cada usuário. O quinto pilar é a simplicidade, com ferramentas que exigem apenas conhecimentos básicos de tecnologia por parte de docentes e alunos.
De acordo com os pesquisadores, a metodologia já permitiu desenvolver, no Brasil, tutores inteligentes de matemática capazes de realizar cálculos sem conexão à internet. Também foram criadas ferramentas de apoio à escrita mediadas por professores. Segundo a equipe, essas soluções já alcançam mais de 100 mil estudantes da rede pública.
Os pesquisadores apontam que a diferença de acesso às tecnologias entre países ricos e nações de baixa renda pode levar décadas para ser reduzida. Segundo as estimativas apresentadas no estudo, sem mudanças estruturais, esses países podem levar cerca de 50 anos para alcançar os níveis de acesso às tecnologias digitais das nações mais ricas. Quando consideradas as competências e habilidades digitais, o prazo estimado chega a 75 anos.
No Brasil, os dados reunidos pelos pesquisadores indicam que apenas 44% das escolas têm acesso adequado à internet para fins pedagógicos. A média é de 29 estudantes por computador, enquanto a recomendação da Unesco citada no estudo é de dez alunos por dispositivo. Além disso, apenas 8% dos professores incorporam tecnologias de forma contínua em suas práticas cotidianas.
Nesse cenário, a IA Desplugada propõe alternativas para que estudantes e professores utilizem ferramentas de inteligência artificial mesmo sem conexão permanente, contribuindo para ampliar as possibilidades de aprendizagem em escolas com limitações de infraestrutura.
O estudo internacional “IA Desplugada na Educação: Práticas, desafios e caminhos a seguir no Sul Global” foi apresentado durante o evento, realizado entre os dias 8 e 11 de setembro, na sede da Unesco. A pesquisa reúne experiências e propostas para tornar o uso da inteligência artificial mais acessível em contextos com infraestrutura tecnológica limitada.
A iniciativa foi desenvolvida pela Cátedra Unesco/Unitwin em IA Desplugada na Educação e pelo Instituto IA.Edu. A proposta considera que as tecnologias educacionais precisam ser planejadas desde o início para funcionar em locais com dificuldades de acesso à internet, em vez de depender de adaptações posteriores.
Além da apresentação do estudo, representantes da Cátedra Unesco e do Instituto IA.Edu participaram de painéis e reuniões estratégicas durante a conferência. Ig Ibert Bittencourt e o cofundador da instituição Thomaz Espósito integraram discussões sobre governança, diretrizes internacionais e cooperação no desenvolvimento de tecnologias educacionais.
A apresentação do estudo na sessão temática foi conduzida pela pesquisadora e diretora de operações Marcela Lorenzoni R. Rabin. A articulação científica também conta com a participação de Seiji Isotani, professor da Universidade de São Paulo e presidente da Sociedade Internacional de Inteligência Artificial na Educação, além dos pesquisadores Rafael Ferreira Mello e César Collazos.
Durante os encontros com especialistas internacionais, os representantes brasileiros defenderam o desenvolvimento de soluções tecnológicas adaptadas às condições locais, com base em pesquisas científicas e nas necessidades concretas das comunidades escolares.
A participação nas atividades da Unesco também incluiu reuniões do Grupo Temático de Cátedras da organização em IA e Educação e iniciativas de colaboração internacional da rede Unitwin. O objetivo é contribuir para a formulação de políticas e diretrizes que promovam o uso ético e inclusivo da inteligência artificial na aprendizagem.
Com Agências


Comentários